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Foto: Werther Santana/Estadão

O que o debate presidencial nos mostra sobre esta eleição?

No embate entre Flávio Bolsonaro e Lula, a pergunta sem resposta virou método, e o palco virou retrato de um país que desaprendeu a conversar

Por Enos Roza Monteiro

· 5 min de leitura ·

Na noite deste domingo (18), a uma semana do segundo turno, Lula e Flávio Bolsonaro dividiram o palco pela primeira vez nesta campanha. Esperava-se um choque entre os projetos de ambos. O que se viu, no entanto, foi um embate marcado por interrupções, acusações lançadas sem contexto e perguntas deixadas no ar, com o senador do PL como principal protagonista das esquivas, sem que o presidente saísse ileso do mesmo roteiro.

É preciso lembrar de onde viemos. No primeiro turno, nenhum dos dois compareceu a debate algum: o período foi marcado por ausências e pelo cancelamento de encontros, inclusive em meio a disputas judiciais. Na semana passada, Flávio chegou a declarar que não iria à Band e, no dia seguinte, recuou, explicando que o anúncio foi pura estratégia para forçar a confirmação de Lula. O debate, portanto, já nasceu como mais um lance de xadrez, e não como um compromisso efetivo com o eleitor.

O cenário também pedia mais do que ofereceu. O primeiro turno terminou com 47,03% dos votos válidos para Flávio e 45,16% para Lula, e a corrida chega à última semana praticamente empatada. Em uma disputa assim, cada minuto de televisão pesa. E foi justamente esse tempo que mais se desperdiçou.

Perguntas sem resposta, respostas sem pergunta

O debate é, por definição, um contrato simples: alguém pergunta, alguém responde, o outro replica. Foi esse contrato que se rompeu, e não de um lado só. Já nos primeiros minutos, quando Flávio cobrou Lula sobre a lobista Roberta Luchsinger, o presidente desviou ao dizer que o caso era "da Polícia Federal" e devolveu citando o "Careca do INSS"; Flávio emendou com o "Lulinha", filho do presidente. Mais adiante, foi Lula quem insistiu, repetidas vezes, numa única pergunta: que explicações Flávio tinha para o pedido de R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro? A resposta não veio. Também ficaram sem explicação a defesa de um policial acusado de matar uma criança de cinco anos e o voto contra a ampliação da licença-maternidade.

A jornalista Letícia Casado, do UOL, resumiu o fenômeno sem rodeios: nenhum dos dois respondeu a praticamente nada. Mas acrescentou o que distingue a noite. O comportamento de Flávio, que interrompeu o adversário, falou por cima dele e se postou atrás de Lula para aparecer em cada enquadramento, lembrou, para os comentaristas, o truque de Donald Trump em 2016, rondando Hillary Clinton no palco. Não era presença em debate. Era produção de cortes.

E os cortes são, de fato, o público que importa. Enquanto a transmissão oficial da Band no YouTube registrou mais de 5 milhões de conexões simultâneas, a verdadeira plateia já estava no dia seguinte, nos recortes de trinta segundos que inundam os aparelhos digitais. Quando o objetivo é render mídia, e não convencer, a pergunta sem resposta deixa de ser falha: vira estratégia.

Lula também pagou o preço. Em vez de impor a pauta com a experiência que reivindica, ele se perdeu respondendo ao que o adversário lhe jogava, bateu boca em tom pessoal e, segundo eleitores ouvidos em pesquisa qualitativa a pedido do Estadão, recorreu ao elogio do próprio governo e a promessas de um futuro melhor, num país que o PT governa há quase duas décadas. Isso resultou em reclamações dos próprios apoiadores sobre as “briguinhas” vistas. A avaliação geral dos grupos foi de que Lula pareceu repetitivo, enquanto Flávio se mostrou vazio e agressivo. Um eleitor que chega declarando voto em Flávio sai indeciso, e o motivo é curto e direto: falta de fundamento.

É aqui que o debate deixa de ser apenas um mau programa de televisão e se torna, de certa forma, um espelho. A polarização brasileira raramente é só divergência, algo saudável em qualquer democracia. Ela é recusa: de ouvir, de responder, de considerar o ponto do outro. Cada campo fala diretamente para o seu próprio núcleo, e o adversário serve apenas de cenário, de papagaio de pirata ou alvo.

O que se passou no estúdio é essa lógica em miniatura. Perguntar virou acusar. Responder virou perder. O contraditório, que deveria ser o coração da noite, foi tratado como armadilha a ser contornada. E, nessa dinâmica, a conta não foi paga pelos candidatos.

Os números sugerem quem pagou. Levantamento da AP Exata aponta que as menções positivas caíram para os dois lados, e o próprio Sergio Denicoli concluiu que o debate desagradou ao brasileiro de forma geral. Entre os indecisos reunidos na pesquisa qualitativa, três seguem cogitando anular o voto. Faltou ao eleitor justamente aquilo que o formato prometia entregar: razões para a escolha.

Há, claro, o contra-argumento de que nem tudo foi vazio. Flávio teve seus melhores momentos ao falar do custo de vida e da segurança pública, e Lula se destacou nas políticas sociais. Há quem veja nas provocações apenas a dureza normal de uma campanha. Mas o que se defende aqui não é que faltaram ideias em absoluto. É que elas foram soterradas por um método que trata o diálogo como derrota.

O que esperar do próximo encontro?

Resta agora o debate previsto pela Globo para sexta-feira (23), apontado como o grande divisor de águas. Se for a repetição do domingo, teremos mais uma noite de tela dividida entre dois monólogos paralelos. Se não for, talvez descubramos que o debate ainda serve para alguma coisa.

Por ora, o que o domingo deixou de mais revelador talvez seja a explicação do nosso tempo: uma política de núcleos fechados, separados por paredes de concreto que nenhum dos lados parece disposto a derrubar. Um cenário deliberadamente escuro que, por consequência, segue cada vez mais distante da luz.


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