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Joédson Alves/Agência Brasil

A fuga de Flávio Bolsonaro pode representar o ocaso do bolsonarismo?

A saída do país, a contestação infundada do resultado eleitoral e o desconforto de antigos aliados expõem uma crise de autoridade no movimento construído em torno da família Bolsonaro

Por Enos Roza Monteiro

· 9 min de leitura ·

A história política brasileira sempre registrou movimentos que sobreviveram à derrota de seus líderes, partidos que se reorganizaram depois de sucessivas crises e correntes ideológicas que permaneceram influentes mesmo após o desaparecimento de seus fundadores. O bolsonarismo, entretanto, ingressa em um momento particularmente singular de sua trajetória. Construído em torno da autoridade pessoal de Jair Bolsonaro e sustentado por uma estrutura de fidelidade familiar, o movimento enfrenta agora uma crise que ultrapassa a perda da Presidência. A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, três dias depois da derrota eleitoral, colocou em evidência uma contradição que há muito acompanha esse campo político.

O episódio ganhou contornos ainda mais graves em 28 de outubro, quando o senador, já em território norte-americano, divulgou uma carta na qual contestava, sem apresentar provas, a legitimidade da eleição presidencial. Na primeira versão, apresentou-se como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Pouco depois, o documento foi alterado, substituindo a autoproclamação pela condição de líder do país. A mudança de palavras, contudo, não eliminou o problema central: derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva por mais de 4,4 milhões de votos, Flávio reivindicava uma autoridade que as urnas não lhe haviam concedido.

A sequência dos acontecimentos ajuda a compreender a dimensão da crise. Após uma determinação do Supremo Tribunal Federal para que entregasse seus passaportes, em meio a investigações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, Flávio deixou o Brasil pela fronteira com a Argentina, seguiu para o Equador e chegou a Miami acompanhado da família. Na carta divulgada posteriormente, agradeceu aos presidentes Donald Trump e Javier Milei pelo apoio recebido e anunciou que pretendia comandar a oposição brasileira do exterior. A iniciativa inaugurou uma situação incomum: o candidato que havia mobilizado quase 60 milhões de eleitores passou a reivindicar a liderança política desse contingente estando fora do país e em confronto com decisões judiciais brasileiras.

Há nesse deslocamento uma questão mais profunda do que a controvérsia jurídica. A liderança política, especialmente quando reivindicada em nome de uma parcela tão expressiva da população, pressupõe algum grau de responsabilidade perante os representados. A decisão de deixar o território nacional não elimina automaticamente essa responsabilidade, nem impede o exercício de influência política. Mas introduz uma distância entre a liderança reivindicada e a liderança efetivamente exercida, sobretudo diante de governadores, parlamentares e dirigentes partidários que permanecem no Brasil, submetidos às instituições e às exigências concretas de seus mandatos.

A carta tornou essa distância ainda mais evidente. Ao agradecer inicialmente a dois líderes estrangeiros e atribuir a si próprio a responsabilidade pelas vitórias de governadores e parlamentares de seu campo, Flávio reproduziu uma concepção profundamente personalista de poder. Os votos recebidos pelos integrantes do movimento apareceram associados à capacidade de mobilização da família, como se a legitimidade dos representantes derivasse prioritariamente de sua proximidade com o sobrenome Bolsonaro. Não se trata de negar a influência eleitoral exercida pelo ex-presidente e por seus filhos, mas de reconhecer a diferença essencial entre ajudar a eleger alguém e considerar-se proprietário do mandato conquistado.

É justamente nessa confusão entre liderança política e patrimônio familiar que reside uma das fragilidades estruturais do bolsonarismo. Desde sua ascensão nacional, o movimento conseguiu transformar a identificação com Jair Bolsonaro em um poderoso instrumento de mobilização, capaz de reunir conservadores religiosos, liberais econômicos, setores militares, antipetistas e eleitores insatisfeitos com a política tradicional. Essa heterogeneidade, entretanto, foi organizada menos por uma estrutura programática comum do que pela centralidade de seu principal representante. Enquanto a autoridade do líder permaneceu suficientemente forte para acomodar divergências, a coalizão preservou uma aparência de unidade. A crise sucessória começa a revelar os limites dessa fórmula.

A escolha de Flávio como candidato presidencial já havia exposto parte dessas tensões. Antes da definição feita por Jair Bolsonaro, setores da centro-direita consideravam o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, uma alternativa para a disputa nacional. A preferência do ex-presidente pelo próprio filho reafirmou a centralidade da sucessão familiar sobre outras possibilidades de reorganização do campo conservador. Mesmo diante de lideranças com mandato, projeção nacional e capacidade própria de articulação, a indicação presidencial permaneceu condicionada à vontade do patriarca político.

A derrota de 25 de outubro, isoladamente, não seria suficiente para produzir uma ruptura. Flávio terminou a eleição com 48,21% dos votos válidos, resultado que demonstra a permanência de uma base eleitoral numerosa e politicamente relevante. Movimentos dessa dimensão não desaparecem simplesmente porque perdem uma disputa, tampouco seus eleitores deixam de compartilhar valores e preferências por causa do revés de uma candidatura. O que tornou o episódio posterior especialmente significativo foi a combinação entre derrota, saída do país e contestação do processo democrático, precisamente quando parte de seus aliados procurava reconhecer o resultado e reorganizar a oposição.

As primeiras fissuras surgiram no interior da própria estrutura bolsonarista. Rogério Marinho, coordenador da campanha presidencial de Flávio e uma das figuras centrais da oposição no Senado, afirmou que não havia provas de fraude eleitoral e tratou as declarações do candidato derrotado como possível manifestação de inconformismo. O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, também manifestou desagrado com a carta, afirmando que o documento não havia recebido aprovação partidária. As reações indicam um limite importante: mesmo entre aliados que reconhecem a liderança dos Bolsonaro, a tentativa de deslegitimar o pleito não encontrou adesão uniforme.

Isso não significa, necessariamente, uma debandada, mas revela as primeiras fissuras na estrutura de fidelidade bolsonarista. O caso de Tarcísio de Freitas traduz esse impasse: reeleito governador de São Paulo, aconselhou Flávio a permanecer no Brasil e reconheceu o resultado eleitoral, mas evitou romper com a família e chegou a questionar a ordem judicial de entrega dos passaportes. Ao admitir uma possível candidatura presidencial em 2030, expôs um dilema que ultrapassa suas próprias ambições: como conquistar autonomia política sem perder o eleitorado ainda identificado com Jair Bolsonaro? A ambivalência revela uma direita que ensaia sua reconfiguração, mas permanece condicionada à influência de um sobrenome do qual parte de suas lideranças ainda não consegue se dissociar.

É nesse equilíbrio que começa a disputa pela hegemonia do campo conservador. A eventual fragmentação do bolsonarismo não pressupõe necessariamente uma divisão partidária imediata, mas pode manifestar-se na emergência de lideranças que já não aceitam subordinar seus projetos à sucessão familiar. Governadores, parlamentares e dirigentes da centro-direita possuem compromissos administrativos, bases regionais e interesses eleitorais que nem sempre coincidem com a estratégia de confronto adotada pelo núcleo mais radicalizado do movimento. A crise de autoridade de Flávio torna essa divergência mais visível, embora ainda seja cedo para determinar sua extensão.

Existe, além disso, uma diferença decisiva entre o eleitor bolsonarista e o eleitor conservador. Embora os dois segmentos frequentemente se sobreponham, não constituem categorias equivalentes. O conservadorismo brasileiro possui tradições partidárias, interesses econômicos e valores sociais anteriores à ascensão de Jair Bolsonaro. Sua identificação com o ex-presidente resultou de uma convergência histórica específica, e não de uma relação necessariamente permanente. A possibilidade de reorganização desse campo dependerá, portanto, da capacidade de outras lideranças oferecerem representação política sem reproduzir integralmente a dinâmica de confrontação que caracterizou os momentos mais controversos do bolsonarismo.

A carta de Flávio também recolocou essa diferença no centro do debate. Ao atribuir irregularidades à votação sem apresentar evidências, o senador retomou uma linha de contestação eleitoral já presente na trajetória de seu pai. Uma das alegações envolveu a prorrogação do horário de votação, mas os dados disponíveis não sustentam a hipótese de que a medida tenha alterado o resultado. Segundo a apuração divulgada pela Agência Brasil, a extensão permitiu registrar aproximadamente 34 mil votos adicionais, diante de uma diferença superior a quatro milhões entre os candidatos. O próprio PL reconheceu a vitória de Lula.

O episódio evidencia o custo político de manter a contestação das instituições como instrumento de mobilização: enquanto setores mais radicalizados reforçam a narrativa de perseguição, outros, inclusive dentro da direita, começam a questionar seus efeitos sobre a construção de uma oposição institucional. O impasse revela uma fragilidade mais profunda do bolsonarismo: a dificuldade de transformar a fidelidade pessoal em uma estrutura política independente da família. Trata-se de um problema que remete ao conceito weberiano de rotinização do carisma, quando a autoridade de um líder se converte em instituições duradouras. No caso brasileiro, a transferência do protagonismo de Jair Bolsonaro para o filho demonstrou força eleitoral, mas também os limites de uma sucessão sustentada sobretudo pelo sobrenome.

Há também um fator que impede qualquer diagnóstico precipitado de extinção. O bolsonarismo já demonstrou capacidade de preservar sua mobilização em circunstâncias adversas, incluindo a derrota presidencial de 2022, investigações judiciais e a prisão de Jair Bolsonaro. Sua presença nas redes sociais, no Congresso, nas assembleias legislativas e em segmentos organizados da sociedade não depende exclusivamente do exercício da Presidência. A saída de Flávio pode provocar desagregação na cúpula sem produzir, na mesma proporção, uma retração imediata de sua base social.

Por isso, falar em fim do bolsonarismo exige distinguir três fenômenos que frequentemente aparecem confundidos: o desgaste da família Bolsonaro, a perda de sua hegemonia sobre a direita e o desaparecimento do movimento enquanto identidade política. O primeiro encontra sinais concretos nas reações à fuga e à carta. O segundo permanece em disputa, diante da movimentação de possíveis sucessores. O terceiro não está demonstrado e tampouco pode ser inferido exclusivamente da derrota eleitoral.

O que se desenha é um possível intervalo na liderança conservadora brasileira. Enquanto o núcleo mais fiel permanece vinculado à família Bolsonaro, outras lideranças ensaiam uma autonomia política ainda condicionada ao receio de perder esse eleitorado. O impasse revela uma direita dividida entre a fidelidade ao passado e a necessidade de reinvenção, diante de uma questão cada vez mais incontornável. O dilema não exige necessariamente uma ruptura completa, mas torna cada vez mais difícil sustentar a ideia de que o comando da direita brasileira pertence naturalmente a um sobrenome.

A fuga de Flávio Bolsonaro, nesse sentido, talvez venha a ser recordada menos como o episódio que encerrou um movimento e mais como o acontecimento que tornou explícitas suas contradições internas. A família ainda conserva influência, representação parlamentar e um eleitorado numeroso. Mas a autoridade de seus integrantes deixou de ser uma questão exclusivamente interna: passou a ser confrontada pela responsabilidade institucional de aliados que precisam permanecer no país e responder por seus próprios mandatos.

O resultado dessa disputa ainda está em aberto. A direita brasileira poderá conservar parte substancial da identidade bolsonarista sob novas lideranças, desenvolver correntes mais autônomas ou permanecer dividida entre estratégias concorrentes. Nenhuma dessas possibilidades equivale, automaticamente, ao desaparecimento do movimento que reorganizou a política nacional na última década.

Talvez a pergunta decisiva não seja se o bolsonarismo chegou ao fim, mas se a direita brasileira conseguirá existir politicamente para além dele. Porque a derrota de uma família não determina a extinção de uma corrente ideológica. E a sobrevivência de um movimento, por sua vez, não assegura que seus fundadores conservarão para sempre o direito de comandá-lo.

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