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Série: O poder viciante da comida - Um pequeno desejo que se torna gigante.

Por Márcio Lima · Saúde e Espiritualidade

· 5 min de leitura ·

Os vícios podem abranger tanto substâncias quanto comportamentos compulsivos.

Substâncias e comportamentos podem ser considerados formas de dependência, entendida como um padrão anormal e duradouro de uso ou prática que é altamente reforçador e pode ser repetido em excesso a ponto de pôr a vida do indivíduo em risco, afirmam especialistas e psiquiatras dedicados ao tema em The Routledge Handbook of Philosophy and Science of Addiction: Diagnosis of Addictions.

Em Toward a Phenomenology of Addiction (Rumo a uma fenomenologia da dependência) O professor Schalow, escreve: “O desejo mais simples pode ser exacerbado [...] e, dessa forma, transpor a linha que o assimila à ‘fissura’ do vício”.

O DSM-5 — o principal manual usado por psiquiatras no mundo — ainda não classifica a dependência alimentar como um transtorno oficial. Atualmente, o manual só avalia o vício em substâncias a partir de 4 sinais:

  • Perda de controle: dificuldade para parar ou reduzir o consumo.

  • Dificuldade de Socialização: prejuízos no trabalho e nas relações.

  • Comportamento de risco: usar a substância mesmo sabendo do perigo.

  • Adaptação Farmacológica: necessidade de doses maiores e sintomas de abstinência.

Para muitos pesquisadores, porém, essa lista técnica não consegue definir a verdadeira raiz da dependência.

Para simplificar esse diagnóstico, o Dr. Marc Auriacombe e sua equipe propõem focar em dois pontos centrais: a falta de autocontrole e a fissura (craving). Ao contrário de uma simples vontade ou desejo passageiro, a fissura é um impulso avassalador que causa real sofrimento físico e mental se não for atendida — funcionando como a ponte direta que conecta os estímulos do ambiente, as reações do cérebro e o comportamento compulsivo.


Para tornar esse parágrafo o mais direto e simples possível, podemos usar uma estrutura visual de "causa e efeito":

O grupo propõe que a dependência funciona como um ciclo de três etapas simples:

  1. Os Gatilhos: São os estímulos do ambiente (como o cheiro ou a visão de uma comida) que despertam a nossa atenção.

  2. A Fissura: Esse gatilho provoca uma vontade avassaladora e difícil de controlar. Logo após ela surgir, a pessoa pode perde a capacidade de parar e de dizer "não".

  3. A Recaída: Pressionada pela fissura, a pessoa acaba consumindo o alimento, completando o ciclo da dependência.

Em resumo: o gatilho acende a fissura, que desliga o nosso autocontrole e nos empurra para a recaída.

O grande perigo dos alimentos ultraprocessados é que o nosso cérebro "antecipa" a “recompensa do prazer” antes mesmo de comermos. Só de pensar no sabor, ele já espera uma recompensa, o que destrói a nossa capacidade de resistir.

A partir daí, qualquer detalhe associado àquele prazer vira um gatilho — seja algo óbvio, como ver um doce na mesa, ou sutil, como passar em frente a uma lanchonete favorita. O cérebro faz essa conexão de forma automática e inconsciente, disparando uma fissura tão imediata que a pessoa é impelida a pegar e devorar o alimento antes mesmo de ter tempo de pensar ou tentar resistir.

Nico Frijda, psicólogo que dedicou sua carreira ao estudo das emoções, identificou as chamadas "tendências de ação" — impulsos que nos predispõem a comportamentos específicos atrelados a cada estado emocional. o medo, por exemplo, traz a vontade instantânea de fugir. O mesmo acontece com a raiva, a tristeza ou a alegria: cada uma nos empurra para uma reação automática. A chave para não cair no piloto automático é perceber esse impulso no momento exato em que ele surge, criando uma pausa consciente antes de tomar qualquer atitude.

Os neurocientistas Eric Zorrilla e George Koob explicam que, na dependência, o pico inicial de prazer gerado pelo consumo é seguido imediatamente por uma reação biológica contrária: um estado de desconforto conhecido como "reação anti-recompensa".

A teoria postula que o uso de substâncias de qualquer tipo pode ativar, depois da resposta inicial de prazer, uma reação antirrecompensa. Esses processos "A" e "B" ("A" sendo a parte prazerosa e "B", a sensação de abstinência) estão contidos no circuito de recompensa e na amígdala estendida, que é a parte cerebral que processa as emoções e as conecta à memória, entre outras funções. "Trata-se de uma downregulation [diminuição da regulação] nos circuitos da recompensa" e de uma "upregulation [aumento da regulação] nos circuitos de estresse amigdalares".

Para cada pico de euforia, segue-se uma queda correspondente de humor e bem-estar. Quanto mais consumimos ultraprocessados ou substâncias viciantes, mais rápido a sensação gostosa vai embora — e mais cedo (e mais forte) bate aquela sensação ruim de mal-estar e abstinência.

Com o tempo, o cérebro perde a capacidade de voltar ao equilíbrio sozinho, deixando a pessoa presa em um estado constante de ansiedade e mal-estar. O neurocientista George Koob chama isso de o "lado sombrio" da dependência: em vez de buscar a comida por prazer, a pessoa come de forma descontrolada e impulsiva apenas para tentar aliviar esse desconforto — um comportamento típico de qualquer vício e a base de muitos transtornos alimentares.

Ninguém decide conscientemente comer até passar do limite. O que acontece é um sequestro biológico: a pessoa é dominada por um impulso avassalador, alimentado pela falsa ilusão de que a próxima mordida trará o alívio e a paz que tanto procura.

Entender essa engrenagem é o primeiro passo para retomar o controle: a culpa não é da sua falta de força de vontade, mas de um circuito cerebral projetado para mantê-lo refém. Da próxima vez que sentir essa urgência incontrolável, respire fundo e tente identificar o gatilho ao seu redor.

Por: Márcio LS

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