Por Márcia R. Carvalho
Não tenho religião definida. Penso nas religiões que pregam o amor e o respeito como caminhos diversos para um mesmo fim: a nossa paz. Hoje seria aniversário de Irmã Dulce. Nascida em 26 de maio de 1914, a baiana que ficou conhecida como a “beata dos pobres” virou santa, canonizada em 2019 — mas já era sagrada há muito tempo no coração do povo. Esse fato, somado a outros mais recentes, como o lançamento do documentário Frei Antônio Sinibaldi: o legado da caridade, roteirizado e dirigido por mim e exibido pela TV Assembleia do Maranhão, me fez refletir: por que exemplos de pessoas boas nos impressionam tanto?
A santidade de Irmã Dulce foi concedida, não por milagres extraordinários — embora também os tenha realizado —, mas pelo ordinário que ela viveu de forma extraordinária: cuidar, alimentar, curar, amar. Sua biografia não é um espetáculo de feitos sobre-humanos. É, na verdade, um lembrete do que todos nós poderíamos ser, se estivéssemos verdadeiramente dispostos.

Aqui em São Luís, o nome de Frei Antônio Sinbaldi nos inspira os mesmos sentimentos. Ele chegou ao Maranhão no final da década de 1970 e se fez morada entre os pobres. Criou um centro social no bairro do São Francisco, acolheu mulheres em situação de vulnerabilidade, escutou crianças em silêncio e rezou não só com as mãos juntas, mas também com elas estendidas. A arquidiocese de São Luís abriu o processo de sua beatificação — e quem conviveu com ele, já o chama de santo há muito tempo. Assim como Dulce, Frei Antônio viveu o evangelho em carne e osso, e não apenas nos púlpitos.
Por que nos comovem tanto essas figuras? Por que o bem — o gesto de dar comida a quem tem fome, de visitar quem está sozinho, de tratar com dignidade quem foi descartado — nos parece algo fora do comum? Talvez porque, de fato, esteja.
Vivemos tempos de eficiência. A indiferença acaba se escondendo sob o manto da praticidade e a pressa justifica a desatenção para os gestos simples. Amar não é fácil e em muitos casos chegar a ser hoje, contracultural. E por isso quem ama com persistência, com entrega e sem buscar plateia, brilha como uma luz rara num mundo saturado de sombras.
O Papa Francisco lembrou, em 2014, que a santidade não é privilégio de poucos, mas um chamado a todos. Os santos “são o rosto bonito da Igreja”, mas não estão apenas nos altares — estão nas mães que lutam pelos filhos, nos voluntários que dedicam domingos inteiros a servir, nos trabalhadores que enfrentam jornadas exaustivas sem abrir mão da honestidade.
Ainda assim, nos surpreendemos quando alguém “simplesmente faz o bem”. Talvez porque esquecemos que fomos feitos para isso. Esquecemos que a solidariedade, a justiça e o cuidado não deveriam ser exceções, mas base. Fundamento. Um alicerce social e espiritual que não se perde com o tempo, mas que precisa ser regado todos os dias com escolhas pequenas — e por isso mesmo tão grandes.
Celebrar pessoas como Irmã Dulce ou Frei Antônio é celebrar a possibilidade de um mundo diferente. É lembrar que não há milagre mais urgente do que a conversão diária à empatia. E que fazer o bem, apesar de tudo, ainda é a forma mais radical de resistir.
Documentário produzido pela TV Assembleia do Marahão sobre o legado de Frei Antônio Sinibaldi