Quem programa o futuro?
Por Nossa Terra
· 3 min de leitura ·
A pergunta é menos retórica do que parece. Num mundo onde algoritmos decidem o que vemos, compramos e até quem contratamos, é inevitável questionar: quem está por trás dessas decisões invisíveis? Quem escreve o código que molda a sociedade?
A revolução da inteligência artificial avança com velocidade estonteante. Plataformas são treinadas para reconhecer rostos, prever comportamentos, gerar textos, automatizar processos. Mas, quando as vozes que alimentam esses sistemas são majoritariamente masculinas e brancas, o risco é que a tecnologia reforce — e até amplifique — as desigualdades históricas que já conhecemos. Sob a aparência de neutralidade, o viés se disfarça de eficiência.
Recentemente, chamou minha atenção o resultado de um pedido que fiz à I.A. Em busca de uma imagem para ilustrar meu texto sobre violência política de gênero, solicitei que a ferramenta me entregasse a imagem de uma mulher, séria, bem vestida, discursando em uma tribuna de uma casa legislativa, sob os olhares de homens – com sombras ou não- que a criticavam, duvidando de sua capacidade discursiva.
A inteligência artificial, no entanto, me entregou imagens com aspecto raivoso e até triste, cabelo descuidado e, por mais que eu mudasse o “prompt”, a representação não correspondia à mulher empoderada — como, em muitos casos, é a realidade.
Defensores dirão que eu não soube explicar direito o que queria — e pode até ser isso mesmo. Mas o que ficou foi um incômodo profundo. Esse foi apenas um exemplo simples entre tantas entregas que reforçam a visão machista — muitas vezes sutil, outras nem tanto — dos homens que desenvolvem algoritmos e acabam reproduzindo esteriótipos, seja nas questões de gênero ou raciais.
O fato é que as mulheres ainda são minoria nas lideranças do setor de tecnologia. Segundo a pesquisa Panorama Mulheres na Tecnologia 2023, apenas 20% dos cargos de liderança em empresas de TI no Brasil são ocupados por elas — uma realidade que se repete em grande parte do mundo.
E quando recortamos por raça, esse número despenca. A sub-representação feminina nas equipes que desenvolvem sistemas de IA compromete não apenas a diversidade de soluções, mas também a justiça social do futuro.
A lógica do silenciamento feminino, tão comum nos parlamentos e espaços de poder, também opera nos bastidores do digital. Algoritmos não nascem imparciais — eles herdam o mundo de quem os cria. Quando a cultura patriarcal dita as prioridades, o que vemos é a reprodução de estereótipos, o apagamento de subjetividades e até a violência. Um exemplo? Assistentes virtuais femininas, programadas para obedecer. Ou sistemas de recrutamento que descartam currículos de mulheres para cargos de liderança.
Como alertaram parlamentares do BRICS em recente encontro internacional, a governança digital precisa ser construída com responsabilidade de gênero. É preciso formular marcos legais que garantam que o uso da IA respeite os direitos humanos e promova a inclusão feminina.
No Brasil, a recente Lei 15.123/25 é um passo importante: ela agrava a pena de violência psicológica contra mulheres quando praticada com o uso de tecnologias. Mas precisamos ir além da punição — é urgente pensar em prevenção, em ética algorítmica, em protagonismo.
O futuro da tecnologia não pode ser construído com os escombros do machismo. É hora de mulheres liderarem esse debate, ocuparem espaços de decisão, fundarem empresas, escreverem os códigos. A presença feminina nas ciências exatas, na engenharia e na inovação não é um detalhe. É um projeto político. Porque só com múltiplos olhares programando é que poderemos sonhar com um mundo mais justo.
Afinal, não basta estar conectada. É preciso estar no controle.


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