
Marina Silva volta a ser alvo de ataques machistas no Congresso: “Nunca trabalhou. Nunca produziu”.
Por Nossa Terra
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Durante audiência na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados nesta terça-feira (2), a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, foi novamente alvo de ataques verbais carregados de machismo e desrespeito. O episódio escancarou, mais uma vez, a tentativa de setores conservadores do Congresso de desqualificar não apenas a política ambiental do governo, mas a figura de uma mulher negra, amazônida e de trajetória popular que ocupa um dos principais ministérios do país.
A reunião, marcada por gritos, interrupções e insultos, foi requerida pelo deputado federal Evair Vieira de Melo (PP-ES), ligado à bancada ruralista, que disparou ataques diretos à ministra. Em uma das falas mais ofensivas, o parlamentar declarou: “A senhora nunca trabalhou na vida. Nunca produziu nada. Só discursou.”

A declaração foi feita em tom agressivo, com o objetivo claro de deslegitimar a trajetória de Marina Silva, que tem mais de 30 anos de atuação pública, foi senadora, ministra em dois governos e reconhecida internacionalmente por sua defesa da Amazônia e da sustentabilidade.
Durante a audiência, outros parlamentares também adotaram tom de confronto. O deputado Cabo Gilberto (PL-PB), ao ser contrariado, gritou fora do microfone: “Calma, ministra!”. Marina respondeu de imediato:
“Isso é machismo. Quando um homem ergue a voz, ele está sendo incisivo. Vocês dizem que estão sendo contundentes — afirmou Marina Silva.”
A ministra também denunciou o uso reiterado de expressões misóginas e a violência simbólica que se repete em ambientes legislativos. Marina, que deixou sua cidade natal no Acre ainda criança para trabalhar como empregada doméstica e estudar, reafirmou seu compromisso com a defesa ambiental e criticou o desrespeito institucional:

Um Congresso hostil às mulheres
O episódio desta semana não é isolado. No fim de maio, durante audiência no Senado, a ministra também foi alvo de ataques do senador Plínio Valério (PSDB-AM), que afirmou: “A mulher merece respeito. A ministra, não”. Na ocasião, Marina deixou a sala em protesto. A bancada feminina do Senado repudiou as falas e exigiu retratação.
A repetição desses ataques revela algo mais profundo: a dificuldade de parte do Congresso em lidar com mulheres em posições de poder, especialmente quando essas mulheres desafiam interesses econômicos consolidados, como os do agronegócio.
Marina Silva representa uma agenda de transição ecológica, proteção a povos originários e desenvolvimento sustentável – pautas sistematicamente combatidas por parlamentares que defendem a flexibilização ambiental e o avanço da fronteira agrícola.
Racismo, misoginia e disputa por narrativas
O que está em jogo não é apenas um embate político, mas simbólico. Marina representa um Brasil que resiste — o Brasil das mulheres negras, das periferias, das florestas. Seus agressores representam uma elite política que ainda se incomoda com essa presença. Tentam desqualificá-la com o argumento de que “nunca trabalhou”, ignorando que sua história é uma das mais emblemáticas da política brasileira.
Para a deputada federal do PSol/RJ, Talíria Petrone, o desconforto de parte dos parlamentares com a presença de mulheres negras em espaços de poder evidencia o abismo entre a composição do Congresso e a diversidade do povo brasileiro. “É uma resistência à democracia real. E a Marina, com toda sua trajetória, é um símbolo disso. Por isso a atacam com tanta ferocidade.”
O machismo estrutural no Parlamento é visível e urgente. A violência política de gênero, embora muitas vezes simbólica, mina o debate democrático, silencia vozes dissidentes e legitima o ódio. Diante disso, é preciso denunciar e nomear: os ataques a Marina Silva são ataques à democracia, à equidade de gênero e ao direito das mulheres ocuparem plenamente os espaços de decisão.
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