
Marina Silva e o peso do machismo estrutural
Por Nossa Terra
· 3 min de leitura ·
Sessão na Comissão de Infraestrutura expõe desrespeito à ministra do Meio Ambiente e revela padrão de violência política de gênero no Brasil
Por Márcia R Carvalho
Um ataque que vai além da política
A sessão da Comissão de Infraestrutura, realizada em 27 de maio de 2025, ultrapassou os limites do debate técnico sobre políticas ambientais e se transformou em um episódio de violência política de gênero. A vítima foi Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, mulher negra, da floresta, com trajetória marcada pela resistência e pelo compromisso com a preservação do planeta.
Durante o encontro, parlamentares dirigiram à ministra falas carregadas de misoginia, em tom desrespeitoso. Tudo diante das câmeras e do plenário.
“Respeito como mulher, mas não como ministra”
O senador Plínio Valério (PSDB-AM) disparou:
“Olhando para a senhora, estou falando com a ministra, e não com uma mulher.”
Marina respondeu:
“Eu sou as duas coisas.”
Valério retrucou:
“A mulher merece respeito, a ministra, não.”
Marina, visivelmente abalada, deixou a sessão após o episódio.
“Se ponha no seu lugar”
Outro momento emblemático ocorreu com o senador Marcos Rogério (PL-RO), que interrompeu a ministra de forma recorrente e disse:
“Se ponha no seu lugar.”
Ao que Marina reagiu:
“Eu tenho educação, sim. O que o senhor gostaria é que eu fosse uma mulher submissa. Eu não sou. Eu vou falar.”
Um padrão que se repete
Esse não foi o primeiro ataque público sofrido pela ministra no plenário do Senado. Em março de 2025, durante audiência da CPI das ONGs, o mesmo senador Plínio Valério fez uma declaração polêmica ao dizer:
“Imagine o que é tolerar a Marina seis horas e dez minutos sem enforcá-la?”
Na ocasião, Marina respondeu com firmeza:
“Com a vida dos outros não se brinca. Só os psicopatas são capazes de fazer isso.”
O machismo que silencia, desacredita e tenta apagar
Não se trata de um caso isolado. A política brasileira ainda é um ambiente hostil para mulheres que ocupam cargos de poder. Quando se expressam com firmeza, são acusadas de “descontroladas”. Quando respondem, são tidas como “inadequadas”. Quando resistem, incomodam.
O machismo não precisa levantar a voz para ferir. Ele se insinua no modo como nos olham, na maneira como nos interrompem, nos desautorizam, nos mandam calar. Ele está ali, entranhado — no tom, no gesto, na estrutura. Às vezes sussurra. Às vezes sorri. Mas nunca é inofensivo.
Marina Silva: dignidade de quem tem história
Após a sessão, Marina declarou:
“Fui agredida fazendo o meu trabalho tecnicamente. Não aceito que alguém me diga que tenho que me pôr no meu lugar. Meu lugar é onde todas as mulheres devem estar.”
A ministra respondeu com serenidade e dignidade — como tem feito ao longo de décadas de luta social, ambiental e política.
O que está em jogo
A tentativa de desqualificação de Marina Silva teve reações. Parlamentares, entidades e especialistas denunciaram o tom misógino do encontro. Mas também houve quem relativizasse os ataques, como se tudo não passasse de “debates acalorados”.
A questão não é partidária. É de alerta. Quantas vezes mais será preciso que mulheres provem sua competência para que sejam respeitadas? Quantas outras Marinas terão que se defender de um sistema que ainda não aprendeu a conviver com mulheres livres e potentes?
Fontes consultadas:
Senado Federal – Vídeo da sessão da CI – 27/05/2025
Agência Senado – Matéria sobre participação de Marina Silva
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