Inventário Florestal revela desafios e oportunidades para a conservação no Maranhão

Mais de 55% do território ainda possui cobertura vegetal nativa; estudo reforça importância de políticas públicas e participação social para garantir o equilíbrio ecológico e o desenvolvimento sustentável

O Maranhão continua sendo um território de relevância ambiental estratégica para o Brasil. Segundo os resultados do Inventário Florestal Nacional (IFN), divulgados pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB) durante a Caravana Maranhão do Governo Federal, cerca de 55% do território maranhense permanece coberto por vegetação natural — o equivalente a 16,9 milhões de hectares de florestas nativas. Essa cobertura vegetal é responsável pelo armazenamento de 5,5 bilhões de toneladas de carbono e pela manutenção de ecossistemas que conectam características da Amazônia e do Cerrado, biomas essenciais para o equilíbrio climático nacional.

Além de medir a extensão da cobertura florestal, o levantamento oferece uma radiografia do uso e da vitalidade das florestas maranhenses, revelando que 76% da população rural utiliza produtos madeireiros e 67% depende de produtos não madeireiros, como frutos, fibras e óleos. Essa forte interação entre comunidades e florestas torna o desafio da conservação ainda mais complexo, exigindo políticas que conciliem desenvolvimento e sustentabilidade.

Diversidade biológica e função climática das florestas maranhenses

Para a professora Raimunda Fortes, bióloga e docente da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), o inventário confirma a importância da vegetação nativa como um patrimônio de valor inestimável.

“A vegetação nativa do Maranhão representa um patrimônio natural essencial para o equilíbrio ecológico e climático do estado”, afirmou. “O Maranhão exerce papel estratégico na regulação climática, no armazenamento de carbono e na conservação de ecossistemas que unem características da Amazônia e do Cerrado.”

A especialista destaca que as florestas maranhenses sustentam uma rica biodiversidade, protegem solos e recursos hídricos e mantêm modos de vida tradicionais. Ela avalia que o inventário fornece um diagnóstico valioso para orientar políticas públicas e práticas produtivas.

Segundo Raimunda Fortes, “a conservação só se torna duradoura quando acompanhada de educação ambiental, compensações justas e alternativas econômicas que assegurem que a floresta em pé seja mais valiosa do que sua degradação.”

O IFN identificou 1.417 espécies de plantas, incluindo 135 novos registros para o estado e 11 espécies ameaçadas de extinção, o que reforça a necessidade de ações voltadas à preservação da biodiversidade.

Programa Maranhão Sem Queimadas: brigadistas capacitados atuam na prevenção e combate a incêndios florestais Foto: David Ferreira

Políticas ambientais e integração de programas estaduais

O resultado do inventário chega em um momento em que o Governo do Maranhão, por meio da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema), intensifica programas voltados ao manejo florestal sustentável, recuperação de áreas degradadas e valorização da bioeconomia.

Entre as iniciativas de destaque estão o Maranhão Sem Queimadas, que atua na prevenção e combate a incêndios florestais em parceria com o Corpo de Bombeiros Militar. Em 2025, o programa beneficiou cerca de 100 municípios, com a entrega de 4 mil equipamentos de combate ao fogo e a formação de 35 brigadas municipais. Também conta com monitoramento via satélite e alertas diários de focos de calor, reforçando a capacidade de resposta local e a educação ambiental nas comunidades rurais.

Outro programa de referência é o Floresta Viva Maranhão, que estimula cadeias produtivas sustentáveis e a restauração ecológica. O projeto inaugurou o maior viveiro público do país, em São Bento, com capacidade para produzir 1 milhão de mudas por ano, beneficiando 100 famílias da comunidade local. A expansão para os municípios de Anajatuba e Rosário inclui viveiros de espécies nativas e parcerias com iniciativas de segurança fundiária e autonomia produtiva de mulheres rurais.

No programa Floresta Viva Maranhão, o Maranhão se destaca gerando oportunidades econômicas para as comunidades locais e promove a recuperação de áreas degradadas e incentiva a conservação e o manejo responsável dos recursos naturais Foto: Victor Gabriel

Uso sustentável e economia verde como caminho de preservação

Para o secretário de Meio Ambiente, Pedro Chagas, os dados do inventário são estratégicos para orientar o planejamento ambiental e socioeconômico do estado. “São informações que contribuem para a conservação ambiental e manutenção de ecossistemas, viabilizando a identificação e qualificação dos recursos florestais”, afirmou. “A partir daí é possível avaliar a extensão, diversidade e sanidade das florestas, os estoques de madeira, biomassa e carbono, bem como a importância e o uso desses recursos pela população local.”

Já a superintendente de Recursos Florestais da Sema, Scarleth Vieira, observa que o uso sustentável das florestas pode ser uma via eficaz de conservação e geração de renda. “Temos exemplos como os produtos derivados da palmeira de babaçu, do pequi, buriti, açaí, aroeira e jaborandi, que contribuem para a manutenção dos recursos naturais e fortalecem as economias locais”, destacou.

O conjunto de programas e políticas ambientais, aliados às informações do IFN, apontam para um cenário em que o Maranhão pode se consolidar como referência em bioeconomia e gestão sustentável. A convergência entre ciência, governança e participação social é vista como o caminho mais promissor para que a floresta continue a ser fonte de vida, renda e equilíbrio climático.

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