Alzira Soriano - primeira prefeita eleita no Brasil (1928)

Coluna de Estreia | Quando a história nos apaga, o feminismo reescreve

Por Márcia Carvalho

Durante muito tempo, aprendi que a história do mundo era feita por grandes homens. Estavam todos lá: reis, generais, filósofos, presidentes. E as mulheres? À margem. No rodapé das páginas. Invisíveis — mesmo quando estavam no centro dos acontecimentos.

Não que eu fosse alheia a mulheres que rompiam barreiras. Ainda lembro da minha adolescência, entre o fim dos anos 1980 e o início dos 1990, quando Margaret Thatcher — a icônica “Dama de Ferro” do Reino Unido — se mantinha no poder e transformava o país. Havia algo de fascinante em sua longevidade e nas mudanças que liderou, mas também pairava uma atmosfera carregada de dúvidas. Naquela época, eu não tinha nome para aquilo; hoje sei que se chamava machismo.

O fato é que a ausência feminina na narrativa histórica não é uma falha inocente. É reflexo de séculos de silenciamento. Mulheres foram protagonistas, mas raramente autoras da própria história. E esse apagamento tem consequências reais até hoje — sobretudo quando falamos de política, o espaço onde decisões moldam vidas, mas onde a presença feminina ainda é vista como exceção.

Não é por falta de competência, nem de interesse. É por resistência. Estruturas foram construídas para manter o poder em mãos masculinas, e qualquer tentativa de rompimento é recebida com desconfiança, críticas desproporcionais ou, não raro, violência.

Mas sejamos francas: o ritmo é frustrantemente lento. Ainda comemoramos quando uma mulher é eleita, como se fosse exceção — e muitas vezes é. Em 2025, a Declaração e Plataforma de Ação de Pequim — documento histórico aprovado durante a IV Conferência Mundial da Mulher, promovida pela ONU em 1995 — completa 30 anos. Seu objetivo era claro: estabelecer estratégias para o empoderamento feminino em 12 áreas cruciais, incluindo a participação política. Três décadas depois, no entanto, os resultados ainda estão aquém do necessário.

Os dados do Mapa Mulheres na Política, publicados recentemente, mostram um cenário preocupante: houve não só estagnação, mas, em alguns casos, retrocesso na presença feminina em cargos eletivos e de liderança. O que era para ser avanço constante tornou-se mais um reflexo da resistência estrutural que insiste em manter as mulheres afastadas das decisões de poder.

De acordo com o levantamento, “apesar de as Américas apresentarem a maior proporção de mulheres parlamentares no mundo (35,4%), o Brasil tem índices muito abaixo da média do continente. Apenas 18,1% da Câmara dos Deputados é composta por mulheres, ou seja, 93 parlamentares. No Senado, elas são 19,8%, somando apenas 16 mulheres”.

Com esses resultados, o país figura entre os que apresentam os piores desempenhos globais nesse indicador. A sub-representação na política não é só um problema simbólico. Ela compromete a qualidade das decisões e não reflete a diversidade da sociedade.

É por isso que o feminismo é tão necessário. Ele não é uma pauta do passado — é um movimento do presente e uma promessa de futuro. Graças a ele, conquistamos o voto, a palavra, o espaço. E é com ele que seguimos pressionando por equidade, por representação, por justiça.

Estrear esta coluna é, para mim, um ato político também. Porque escrever é ocupar espaço. É disputar narrativa. É fazer o que a história tantas vezes nos negou: falar em voz alta, com nome e sobrenome.

Quero usar este espaço para lançar luz sobre as questões que ainda insistem em ficar à sombra. Para contar histórias que não foram contadas. Para provocar incômodos necessários. Afinal, democracia de verdade não se faz só com voto. Se faz com presença. E presença, para mulheres, sempre foi resistência.

Seja bem-vinda. Seja bem-vindo. Que esta coluna nos lembre, a cada edição, que nenhuma mulher é invisível quando escreve a própria história.

Alzira Soriano - primeira prefeita eleita no Brasil (1928)
Alzira Soriano – primeira prefeita eleita no Brasil (1928)

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