Em discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, presidente do Brasil diz que democracia e soberania são “inegociáveis”, condena atos contra o Judiciário e aponta “genocídio em curso” na Faixa de Gaza. Recado a Trump e defesa da reforma do sistema multilateral também marcaram a fala.
NT Notícias
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu nesta segunda-feira (22) a 80ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) com um discurso firme em defesa da democracia brasileira, críticas à guerra em Gaza e recados diretos à política externa dos Estados Unidos, especialmente à gestão de Donald Trump.
Durante a fala, Lula classificou como “inaceitáveis” os ataques ao Judiciário brasileiro e afirmou que “nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis”. O presidente condenou ainda a possibilidade de anistia para envolvidos em atentados à ordem democrática.
“A CPMI não pode ser palco de mentiras. Prestar falso testemunho aqui é um desrespeito ao trabalho que desenvolvemos em defesa da população. O depoente mentiu diversas vezes e isso não pode ficar impune”, afirmou Lula.
Recado ao mundo após condenação de Bolsonaro
Sem citar nominalmente o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Lula lembrou que, recentemente, o Brasil condenou um ex-chefe de Estado por tentativa de golpe de Estado, classificando o fato como “um recado a todos os candidatos a autocratas”.
“Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado: nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis. Seguiremos como nação independente e como povo livre de qualquer tipo de tutela”, afirmou.
No início de setembro, o Supremo Tribunal Federal condenou Bolsonaro a 27 anos de prisão, por entender que ele liderou uma organização criminosa para tentar impedir a posse de Lula após as eleições de 2022.
Críticas a Trump e defesa do multilateralismo
Lula também condenou a política tarifária e as sanções unilaterais adotadas recentemente pelos EUA, criticando o aumento de 50% nas tarifas de produtos brasileiros medida que agravou a relação entre os dois países.
“Mesmo sob ataque sem precedentes, o Brasil optou por resistir e defender sua democracia. Agressão contra a independência do Judiciário é inaceitável. Essa ingerência conta com o auxílio de uma extrema-direita subserviente e saudosa das antigas hegemonias”, afirmou.
“Falsos patriotas arquitetam e promovem publicamente ações contra o Brasil. Não há pacificação com impunidade”, disse.
Conflitos globais e genocídio em Gaza
Em relação ao cenário internacional, Lula voltou a criticar os ataques do governo de Israel à Faixa de Gaza e classificou os bombardeios como “genocídio em curso”.
“Os atentados terroristas perpetrados pelo Hamas são indefensáveis sob qualquer ângulo, mas nada, absolutamente nada, justifica o genocídio em Gaza”, afirmou.
Ele também lamentou a ausência do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que teve o visto negado pelos Estados Unidos. Segundo Lula, “a voz do Sul Global deve ser respeitada e ouvida”.
Crise climática e convite à COP30
O presidente brasileiro também destacou os efeitos das mudanças climáticas e reforçou o convite aos líderes mundiais para participarem da COP30, que será realizada em 2026, em Belém (PA).
“O ano de 2024 foi o mais quente já registrado. Bombas e armas nucleares não vão nos proteger da crise climática. A COP30, em Belém, será a COP da verdade. Será o momento de os líderes mundiais provarem a seriedade de seu compromisso com o planeta”, disse.
Predisente Lula fez um discurso durante a abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU)
Redes sociais e regulação digital
Outro ponto destacado foi a necessidade de regulação das redes sociais. Lula argumentou que o ambiente digital precisa de regras claras para combater a desinformação e proteger as instituições democráticas.
Contexto da Assembleia
A Assembleia Geral da ONU ocorre anualmente em Nova York e reúne líderes dos 193 países membros para debater os grandes temas globais. O Brasil, por tradição, é o primeiro país a discursar.
Nesta edição, o tema central é: “Melhor juntos: 80 anos e mais em prol da paz, do desenvolvimento e dos direitos humanos“
Outros pontos abordados por Lula:
Defesa do multilateralismo e reforma da ONU;
Críticas às sanções contra Cuba e à militarização do Caribe;
Apelo por diálogo na Venezuela;
Proposta de solução diplomática para a guerra entre Rússia e Ucrânia, com destaque para a reunião no Alasca como sinal de possível avanço.