
Fungos micorrízicos podem restaurar pastagens degradadas na Mongólia
Experimentos com áreas cercadas mostram crescimento vegetal superior e destacam a importância da biodiversidade fúngica subterrânea
Por Nossa Terra
· 2 min de leitura ·
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
Fungos invisíveis a olho nu e distribuídos em um complexo sistema subterrâneo foram apresentados como solução para restaurar terras degradadas, combater a desertificação e a crise climática por pesquisadoras durante encontro na Embaixada da França em Ulaanbaatar, no contexto da 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Combate à Desertificação (COP17).
Conhecidos como fungos micorrízicos, eles estabelecem simbiose com raízes das plantas, recebem carbono da fotossíntese e ajudam a obter água e nutrientes como fósforo e nitrogênio, formando extensas redes que agregam partículas do solo, reduzem a erosão e aumentam a resistência das plantas à seca e a outros estresses ambientais.
A estratégia testada na Mongólia consiste em cercar pequenas áreas de pastagem para impedir temporariamente a entrada de animais e a ação humana, criando refúgios de biodiversidade subterrânea e potenciais fontes de fungos locais para projetos de restauração. "É como um banco de sementes, mas de fungos. Eles criam uma infraestrutura viva subterrânea que mantêm o solo unido. São como um sistema circulatório que conecta a vida acima e abaixo do solo", explicou a bióloga evolucionista Toby Kiers.
A pesquisadora local Burenjargal Otgonsuren, ecóloga especializada em micorrizas, instalou seis áreas cercadas em regiões de estepe e deserto. Os primeiros resultados, obtidos em 2025, mostraram que a vegetação dentro das áreas protegidas já apresentava maior altura que as plantas fora das cercas. Ela pretende acompanhar os experimentos por pelo menos três anos e avalia a criação de corredores ou áreas de refúgio mais amplas.
Segundo Otgonsuren, pesquisas indicam que até 91% das pastagens degradadas da Mongólia poderiam ser recuperadas, mas a questão mais importante é ter um solo saudável e proteger a biodiversidade que vive dentro dele. "Para recuperar a pastagem, a questão mais importante é ter um solo saudável. E, quando falamos de solo saudável, precisamos também proteger a biodiversidade que vive dentro dele", afirmou.
Nas amostras coletadas, cerca de 90% das sequências de DNA fúngico analisadas pertenciam a espécies ainda desconhecidas, totalizando 541 unidades taxonômicas associadas aos fungos micorrízicos na região do Gobi. "Precisamos proteger essas espécies endêmicas e reproduzi-las nós mesmos para depois utilizá-las", disse Otgonsuren.
Kiers ressaltou que políticas ambientais costumam focar em plantas e animais visíveis, deixando os organismos subterrâneos de fora das áreas prioritárias. Aproximadamente 90% dos hotspots de biodiversidade microbiana identificados pela Society for the Protection of Underground Networks (SPUN) estão fora de áreas protegidas. "Precisamos superar esse viés em favor do que está acima do solo e começar a proteger aquilo que não conseguimos ver", declarou.
A SPUN já colabora com pesquisadores e comunidades locais em diferentes partes do mundo para mapear redes subterrâneas, com a proposta de incorporar o conhecimento produzido localmente a um atlas global e às políticas públicas. "Estamos convidando as pessoas a integrar os fungos às políticas", concluiu, acrescentando que "Eles são componentes vitais de como monitoramos e combatemos a desertificação".
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