Empreendedorismo feminino negro: Desafios e conquistas em destaque na Feira MA Preta

Dados recentes apontam um retrato desafiador, mas também inspirador, do empreendedorismo feminino negro no Brasil. Segundo o levantamento “Empreendedoras e seus Negócios 2024”, da Rede Mulher Empreendedora, as mulheres negras que empreendem ainda enfrentam desigualdades significativas: apenas 44% têm ensino superior completo, contra 61% das mulheres brancas; 62% delas são chefes de família; e 61% vivem com até dois salários mínimos por mês. Além disso, quase metade (49%) tem faturamento mensal inferior a R$ 2 mil e 52% estão endividadas.

Mesmo diante desses obstáculos, histórias de superação como a de Ana Rosa Silva e Teresa Cristina Serejo mostram como o afroempreendedorismo tem se tornado uma importante via de resistência, geração de renda e fortalecimento da identidade. As duas integram a Feira MA Preta, iniciativa maranhense que vem abrindo portas para mulheres negras empreendedoras.

Coordenadora geral da Feira MA Preta, Ana Rosa relembra que o projeto nasceu em 2018 e, desde 2022, faz parte do calendário oficial do estado do Maranhão. “A gente começou como uma feira de rua, e hoje temos uma loja colaborativa no Shopping Rio Anil, além de participações em eventos e ações de valorização da cultura negra”, destaca.

A Feira reúne mais de 400 afroempreendedores de diferentes segmentos, entre eles moda, gastronomia, cosméticos, artesanato, biojoias e serviços. Uma diversidade que reflete a pluralidade das mulheres que buscam no empreendedorismo uma forma de sustento e afirmação. Dados da pesquisa “Nanoempreendedorismo Feminino: Desafios e Motivações”, do Instituto Consulado da Mulher, reforçam esse cenário: apesar de 97% das entrevistadas terem algum tipo de negócio, 25% ainda não se reconhecem como empreendedoras formais.

Tereza Cristina Cerejo Pinto cria roupas e acessórios únicos com identidade afro e religiosa

Esse processo de fortalecimento da identidade empreendedora é vivido, na prática, por Tereza Cristina, uma das expositoras da Feira MA Preta. Atuando no setor de confecção, ela personaliza roupas com temáticas afro e de religiões de matriz africana. “Cada peça é única. Quando as pessoas encontram minha roupa no shopping ou nas redes sociais, elas se sentem representadas. Antes, muita gente tinha vergonha de usar. Hoje, elas vêm, até mim, para comprar”, conta Tereza, que já teve uma de suas criações desfilando no Maranhão Fashion Week.

A jornada dessa empreendedora também inclui capacitações oferecidas pela própria Feira. “Não é só chegar e vender. Aprendemos sobre materiais, atendimento, posicionamento nas redes sociais e produção de qualidade. Ser MEI me deu mais segurança e profissionalismo para crescer. Agora eu sou uma empresa, e não mais apenas um trabalho de fundo de quintal”, afirma.

Essa busca por profissionalização é uma necessidade apontada em todas as pesquisas sobre o tema. Entre os desafios mais citados pelas empreendedoras negras estão a dificuldade de acesso a crédito, a conciliação entre o trabalho e as responsabilidades domésticas – realidade de 47,8% das entrevistadas, que dedicam mais de 35 horas semanais aos cuidados com a casa – e a falta de reconhecimento.

Na Feira MA Preta, além da exposição e venda de produtos, o apoio, entre as participantes, também faz a diferença. Ana Rosa lembra de um caso emblemático: “Temos uma empreendedora que está em tratamento contra o câncer. Mesmo afastada, seus produtos continuam sendo vendidos por nós. Aqui é uma rede de apoio, de afeto e de fortalecimento coletivo”.

Para quem quiser conhecer mais, a loja da Feira MA Preta funciona no primeiro piso do Shopping Rio Anil, em São Luís. Informações adicionais estão disponíveis pelo Instagram @feiramapreta e pelo WhatsApp (98) 98426-6820. As inscrições para novas expositoras estão abertas para a próxima edição da feira, que acontece em novembro.

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