Por [NT Notícias/ Márcia R. Carvalho]
Sebastião Salgado partiu. O Brasil perde mais que um fotógrafo: perde uma consciência. Um olhar que, em preto e branco, revelou os tons mais profundos da condição humana. Salgado faleceu aos 81 anos, em Paris, onde vivia, deixando um legado artístico e político que atravessou continentes, florestas, desertos e zonas de guerra — sempre com a delicadeza de quem sabia que não basta ver: é preciso enxergar.
Mineiro de Aimorés, formado em economia, ele descobriu a fotografia já adulto, durante missões profissionais na África. Mas foi ali, atrás da lente, que Salgado encontrou o que talvez todos procuramos: sentido. Documentou trabalhadores, migrantes, povos ameaçados, zonas esquecidas. Fez do silêncio das imagens uma denúncia. E da beleza, uma forma de resistência.
Projetos como Êxodos, Trabalhadores e Gênesis não apenas mostraram o mundo — eles o interrogaram. Salgado nos fez parar diante daquilo que muitos preferem desviar os olhos: a desigualdade, a exploração, o deslocamento, o colapso ambiental. Sua última grande série, Amazônia, é um grito e um abraço. Um chamado pela floresta, pelas culturas indígenas e pelo equilíbrio do planeta.

Ao lado da companheira de vida e de trabalho, Lélia Wanick Salgado, criou o Instituto Terra, no Vale do Rio Doce, uma iniciativa que recuperou áreas devastadas da Mata Atlântica. Plantaram árvores, plantaram esperança. Mostraram que o mundo pode se regenerar — e a arte também.
Para quem deseja mergulhar em sua trajetória, o documentário O Sal da Terra (2014), dirigido por Wim Wenders e por seu filho Juliano Ribeiro Salgado, oferece uma travessia poética por suas imagens e convicções. Já o site do Instituto Terra reúne informações sobre suas ações ambientais e exposições.
Sebastião Salgado não fotografava paisagens: ele fotografava destinos. Fez do foco um gesto de escuta. E se foi, deixando em nós a incômoda e necessária pergunta: o que faremos com aquilo que ele nos mostrou?

